O artista multimídia José Tarcísio Ramos - Zé Tarcísio - Nasceu no dia oito de fevereiro de 1941, em Fortaleza. Era período de Carnaval no Brasil, enquanto na Europa acontecia a II Guerra Mundial. A cidade de Fortaleza, assim como Natal, no estado do Rio Grande do Norte, sediavam bases militares norte-americanas. Marieta Ramos de Oliveira é nome da mãe do artista. Marieta quis ter um filho e o teve. Zé Tarcisio Nasceu na Rua do Imperador, mas uma hora depois de chegar ao mundo, já era integrante da comunidade da Vila Diogo, no centro da capital cearense. Toda a infância do artista se passou na Vila Diogo, em companhia de uma família de mulheres vinda do município de Viçosa do Ceará, que o adotou.
 
Havia duas saídas da Vila Diogo: uma delas dava acesso à Rua Pedro I, a outra à Rua Duque de Caxias. Foi por estas saídas que Zé Tarcísio partiu para o mundo. Os outros caminhos que percorreu foram abertos pela vida.
 

A Vila Diogo foi o cenário do desenvolvimento de sua criatividade. Naquelas calçadas longas, de 36 casas, o giz e o carvão eram os instrumentos da meninada. Desenhávamos números, o inferno e o céu e brincavam de “macaca”, que hoje se apelida “amarelinha”, escreviam e registravam pequenas pornografias infantis. Estas surtiam efeito nos adultos
desencadeado em momentos de protesto, que acabavam em imensas empreitadas de baldes, latas d’água e vassouras.

Francisca Leite Pedrosa, a Dona Chiquinha, era a matriarca da família que adotou Zé. Ele a chamava de “Mamãe”. Ela era baixinha, índia pura. Ele costumava acompanha-la às idas ao mercado. Ela era muito conhecida na Vila e todos a chamavam de “vovó”. Como sempre recebia presentes da vizinhança. Voltavam para casa com as cestas cheias de
frutas, verduras e outros presentes. Para ele, apesar de serem pobres, era fartura o anointeiro!

Bibi era filha de “mamãe”. Tarcísio vivia no rabo de saia dela. Eram novenas, procissões, tríduos, romarias e semanas eucarísticas... Enfim, ele ia com Bibi a todos os eventos da Igreja de São Benedito. Aliás, na casa deles, o catolicismo hispânico era muito marcante. Rezavam o terço diariamente e um Ofício à Maria aos sábados, ajoelhados, durante 40 minutos! E foi no catecismo da Igreja de São Benedito que ele ensaiou muitas das atividades que mais tarde desenvolveria na sua história com as artes. Tarcísio confessa que somente depois de ter algum conhecimento foi que pôde compreender o valor daquelas vivências religiosas.

A outra filha de “mamãe” era Alzira, que ele chamava de “titia”. Ela administrava a casa e orientava a todos eles. Ela dizia: “É por aqui... ” ou “É por ali...” e, de certa forma, Alzira representou para ele a segurança do cotidiano e da rotina. Havia também Estelita, neta de “mamãe” e estudante da Escola Normal. Dela o artista traz profundas lembranças. Foi ela quem o ensinou a declamar os primeiros versos. Estelita morreu com 17 anos. Era 1948.

Marieta, a mãe do artista, foi morar com eles dias depois do nascimento de Tarcísio. Ela se integrou tanto naquele universo doméstico que, durante a infância, ele jamais percebeu que ela não era parente, tampouco que ele fora adotado. Quando Tarcísio tinha três anos, Marieta foi morar no Educandário Eunice Weaver, onde ministrava aulas de prendas domésticas para moças. Depois disto, suas visitas de três dias a cada mês eram festas para ele.

E assim foi durante anos. Já adolescente, foi sorteado num concurso da Rádio PRE-9 patrocinado pela “Casa das Máquinas: O maior crediário do Ceará”. O premio foi uma máquina de costura Singer. Então, Marieta voltou a morar com eles e a casa da Vila Diogo passou a ser o seu local de trabalho. Ela costurava, trazendo algum dinheiro para a casa. A partir daí, a convivência mais próxima com Marieta foi um infindável conhecer artístico para ele. Ela o surpreendeu em tudo o que fazia!

E além da vida nas calçadas e na Igreja, havia a escola. O artista confessa que nunca foi estudioso. Tomou contato com as primeiras letras em casa, pois ali estava instalada uma sala de aula pública para as crianças do bairro, Dona Maria Abreu era a professora. Depois, esteve no Grupo Municipal Duque de Caxias, onde cursou até a quinta série. A escola, antes de ser um lugar para se aprender os conteúdos tradicionais, era para ele uma experiência de diversão e de contato com a diversidade. Ia à escola para brincar, jogar e se relacionar com os outros. Depois do Grupo Duque de Caxias, continua os estudos no Colégio 7 de Setembro. Ali conhece o Dr. Edílson Brasil Soárez,, diretor do colégio. Para o artista o diretor era uma história à parte para cada um dos alunos. Para Tarcísio, ter ouvido seus conselhos foi imprescindível na decisão pelas artes.
 
   

A vida em Fortaleza prosseguia. Tarcísio conheceu o teatro em pequenas atividades da igreja. Encantou-se com as transmissões de rádio na vizinhança e, naqueles tempos, alimentou o sonho de ser radialista. Já desenhava e pintava, como aspirante autodidata a artista. Conheceu também pessoas que já tinham trilhado alguns passos no fazer artístico.

Em apenas uma semana de aula com Zenon Barreto, já pôde esboçar o desenho de seu futuro no mundo das artes plásticas. Naquela ocasião teve um encontro com Antônio Bandeira, que visitava Fortaleza. Ele o incentivou a mudar-se ao Rio de Janeiro, enquanto Zenon dizia: “Vá em frente!”, Bandeira repetia: “Procure um centro maior!”.

Zé Tarcísio chegou ao Rio de Janeiro em 1961, com 20 anos de idade. Tudo era novo, inclusive ele. De repente, todo o movimento cultural dos anos de 1960 surgiu ao seu alcance na grande cidade. E Fortaleza começou a parecer pequena demais para ele. Percebeu que o corre-corre da cidade grande, a concorrência e principalmente a possibilidade de adquirir conhecimentos mais cosmopolitas o fizeram falta quando vivia em Fortaleza.

Ao chegar ao Rio, matriculou-se no Colégio Marcílio Dias, como bolsista da seccional carioca do MEC, então Ministério da Educação e Cultura. Foi então que, num acaso, tornou-se escrevente datilógrafo daquele Ministério.

O Rio de Janeiro tornou-se a base da vida do artista. Seu primeiro pouso foi uma casa na rua Bento Lisboa, no Catete. Depois morou na Lapa e em Copacabana. Por fim chegou à Santa Teresa. Ali estreitou os contatos com as artes. Conheceu muitos artistas. Promoveram exposições coletivas, fizeram gincanas culturais, interferências na vida urbana e muita boemia... Zé Tarcísio Criou, na sua casa, um Espaço Cultural, onde aconteciam eventos ou simplesmente ao amigos se encontravam para conversar. O artista confessa que sente saudades dos tempos de Santa Teresa.

Em meio a esse enorme mundo novo que se mostrava para ele, em 1964 fiz vestibular e ingressou na Escola Nacional de Belas Artes. Freqüentou o curso por três anos e cheguou a ser premiado em alguns salões internos. Mas antes de concluir o curso, desistiu da escola. Até mesmo alguns professores insistiram para q ue ele prosseguisse sua carreira como autodidata. Tarcísio diz que talvez essa decisão tenha sido tomada porque ele se permitiu muita liberdade, não só no fazer artístico como também na escolha dos caminhos de sua vida. Arrisca-se a dizer que o Rio de Janeiro representou a possibilidade de construir a sua própria “Universidade da Vida” e esta especializando-se nela até hoje.

Por volta de 1966, os salões competitivos começaram a aparecer com mais freqüência em sua trajetória. Pouco a pouco foi sendo premiado e reconhecido... Seu currículo de artista estava se formando.

No final dos anos 1960, “Mamãe” morreu. Ele voltou á Fortaleza e levou “titia” e Bibi comigo para o Rio de Janeiro. Marieta já estava por lá, morando com ele. Elas regressaram ao Ceará 10 anos depois.

Em 1971 Zé Tarcísio saiu do Brasil pela primeira vez. Integrava a delegação nacional para a VII Bienal Jovem de Paris. A experiência na Europa foi riquíssima e por isso, volta muitas vezes. Em Londres viu os artistas que se apresentavam nas ruas. Eram novas manifestações artísticas decorrentes da efervescência cultural daqueles anos... Tudo ia se incorporando ao seu acervo intelectual e, se por um lado às novidades o fascinavam, por outro, davam instrumentos para compreender melhor os ingredientes de suas vivência em Fortaleza e no Rio de Janeiro.

Na viagem para a VII Bienal Jovem de Paris conheceu Satiyo. Sua beleza oriental o arrebatou. Voltaram juntos para o Brasil e se casaram. Um ano depois no Rio de Janeiro nasceu Harumi. Hoje Satiyo e o artista não vivem mais juntos. Harumi é casada e vive no Japão.

Zé Tarcísio viaja muito. Conheceu todo o Brasil e em 1977 fez uma importante jornada pela América do Sul. As relações entre os povos nativos com a cultura do europeu colonizador acenderam grandes questões no artista... Tempos depois, essas questões se transformaram em leituras plásticas. A diversidade nos modos de viver também o fascinava. Viveu alguns momentos nas capitais, onde nem sempre seu passaporte estrangeiro resguardou-o das perguntas dos agentes dos regimes autoritários na Argentina e no Chile.

Em 1980 esteve novamente em Fortaleza. Sua família estava instalada num bairro novo, a Cidade 2000. Percebeu que estava próximo o momento de voltar para o Ceará. “titia, Bibi e Marieta estavam velhas e precisavam de sua participação na casa.

Assim, deixou o atelier em Santa Teresa e se transferiu para Fortaleza. Mas não abandonou seu ritmo de vida artística. Participava dos movimentos da cidade. Acabou montando um atelier na rua Dragão do Mar, na Praia de Iracema. Naquela época, o lugar era conhecido como zona do meretrício da cidade, havia ainda alguns escritórios de importação e exportação, lugar de passado glorioso. Zé Tarcísio trabalha e mora no atelier da rua Dragão do Mar até hoje.

Além desse atelier, montou galeria de arte e residência numa casa da rua Carlos Vasconcelos. Vivemos ali ele, Alzira – a “titia” – e Marieta. Bibi também já tinha morrido. A casa se transformou num espaço de arte e cultura. Era freqüentada pela mocidade da cidade. Assim, em 1983 nasceu a “Por Hipótese Produções”, que organizava os acontecimentos. Anos depois, Alzira faleceu e ficaram somente ele e Marieta.

 

Morar em Aracati foi uma opção compartilhada pelos dois. Moramos por algum tempo no centro daquela cidade no município do litoral Leste do Ceará, mas logo se mudaram para o Cumbe, uma pequena aldeia próxima ao mangue com dunas e praia. Ali construiu uma casa com jardins. Tarcísio e Marieta viviam “naturalmente”. Produziam suas frutas e verduras, comiam peixe, galinhas da roça e caranguejo. Havia também muitos pássaros e flores. Essa experiência foi uma renovação para o artista. Junto com minha mãe biológica, descobriu verdadeiramente a “mãe-terra”. Recebi da Câmara Municipal daquele municipio o título de cidadão honorário de Aracatí.

Além do Cumbe, viver na praia nativa de Canoa Quebrada foi deslumbrante. Ali, pôde descobrir formas de um exercício político mais consciente. Inundado pela natureza do lugar, filiou-se ao Partido Verde e criou um diretório político do partido em Aracati. Acabou se candidatando a uma vaga de vereador na cidade, porque achava que aquele seria um caminho eficiente para transmitir meus pensamentos aos jovens.

Não se elegeu, mas durante a campanha, acha que conseguiu atingir um pouco a consciência da mocidade da região. Vários jovens se aproximaram do artista naquele período. Os pequenos comícios da propaganda eram regados ao som do reagge, e seu discurso era curto: “Se você não muda, nada muda”! Depois disso, afastou-se dos partidos políticos e hoje não sou filiado a nenhum deles.

A formação da Rádio Malazartes também foi uma tentativa de conscientização através da arte. Sua programação enfocava as manifestações culturais da região, a música brasileira e a prestação de serviços para a comunidade. Ela também promovia cursos. Zé Tarcísio se envolveu completamente com a instalação da rádio Malazartes. Procurou patrocínio, montou equipe, criou e apresentou programas... cuidou também de alguns aspectos técnicos da transmissão. Ele revela que foi uma experiência pessoal riquíssima. A Rádio Malazartes funciona até hoje em Canoa Quebrada..

A saúde de Marieta inspirava cada vez mais cuidados e, como era prioridade para ele, voltaram a morar na sede de Aracati, onde havia melhores condições para que cuidasse dela. Zé Tarcísio montei um atelier e incrementou sua participação na vida cultural da cidade. Suas atividades junto aos jovens também aumentaram: deu aulas de artes e promoveu oficinas e shows. Em 1997 participou da administração do município, ocupando o cargo de Secretário da Cultura. Do qual depois abdicou.

Zé Tarcísio também montou “Romance”. Foi um sonho que não deu certo. Era um restaurante que servia também como espaço cultural da cidade.

Marieta morreu em 1992. As visitas a Fortaleza ficaram cada vez mais freqüentes depois disso. Mudou-se para Fortaleza em 1998 e foi morar no atelier da Rua Dragão do Mar. Acompanhou toda a transformação do lugar no principal núcleo de cultura do Ceará, tanto que contribuí com algumas obras para o acervo permanente do Centro Cultural Dragão do Mar.

O artista está com 64 anos e mora na Rua Dragão do Mar até hoje. Procura se integrar na vida cultural fortalezense e continuo com sua produção plástica. Mas não deixa de ter contatos com tudo o que acontece no mundo.